Frequentemente esforço-me por dominar as emoções, evitando manifestar-me sobre assuntos demasiadamente dolorosos ou revoltantes. Por que, me conheço. Quando os dramas que estão em pauta são familiares, eles me pegam inteiramente pela emoção. A emoção, que sempre nos dá lições, acorda para o significado da vida, justificando a nossa irrefutável condição humana. E, no mais das vezes, ela é o recurso milagroso que imprime um sinal de vida onde parecia não haver. Às vezes, o leve sinal de sua presença, pode redimir - ou, por outro lado, condenar - o culpado.
Mas, é verdade também que as aparências das coisas mudam de acordo com as nossas emoções internas. A emoção pode distorcer a percepção, a visão, pode enganar e nos fazer cometer equívocos.
É nesse ponto, que temo que as emoções dominem a razão, e nessa região fronteiriça tênue, fazer análises e julgamentos injustos, inoportunos de epsódios dos quais não participei, não fui testemunha ocular. Daí que, para descambar para a parcialidade, o passo é curtíssimo. E um passo mal dado, uma expressão mal formulada, numa via, numa estrada que anda na velocidade do pensamento, tem repercussões importantes na vida das pessoas, para o bem, ou para o mal.
Tecer comentários e considerações sobre delitos complexos e carregados de alto conteúdo emocional é um ato arriscado. Por isso, minha tendência é sempre de, no máximo, assistir e questionar os fenômenos públicos, particularmente e junto ao meu círculo de convivência. Mas, é claro, que frequentemente, vejo-me emaranhada em minhas próprias contradições internas, e o desejo de bradar "fala" mais alto.
Manter-me aparentemente distante dos acontecimentos polêmicos, na minha aparente acomodação cotidiana, é uma postura socialmente correta? Mas, o que é certo, o que é errado? O que é certo para uns, pode ser errado para outros.
Malgrado todas essa inquietações, e cônscia de minha fragilidade emocional, evito afirmações, julgamentos precipitados ou a sensibilização coletiva pelo blog ou e-mails.
Sou altamente vulnerável ao sofrimento infantil e dos idosos. Fico penalizada, revoltada e piegas. Vocês questionarão: e daí, todo mundo fica. O que há de impressionante nisso? Tenho um caráter materno, não só pela minha própria condição de mãe, e por amar incondicionalmente o meu filho. Como se isso não bastasse, sinto-me visceralmente mãe de todas as crianças. E, mais frequentemente do que gostaria, sinto-me, pretensiosamente, mãe da humanidade. É aí, onde mora o perigo. Perco a dimensão da minha humilde condição de pessoa igual a todo mundo, limitada, acreditando-me forte, poderosa o suficiente para aniquilar o inimigo, ou seja, o monstro ou monstra criminosa/o, torturador/a de gente, criancinhas e idosos.
Não obstante a minha consciência de direitos à cidadania, reconheço que os impulsos ocultos, extremos, devem ser evitados.
Por vivermos num estado democrático de direito, existem instituições que têm a obrigação moral e legal de manter a ordem, julgar, aplicar punições. Não podemos usar canais de grande amplitude como internet, para manifestações extremas de cidadania e gestos tresloucados de intervenção amadora e de manipulação social. Se as instituições não estão dando conta, cobremos delas, mas não podemos fazer justiça com as próprias mãos, nem fazer da nossa língua um punhal assassino.
Quantas vezes, ao ver o casal Nardoni e o monstro Josef Fritzl na televisão, cada um de nós não tem o ímpeto desejo de fazer justiça, no papel de juízes e algozes? O autocontrole e bom senso, aliados a uma boa dose de serenidade são necessários para evitar que as emoções nos deixem levar pela mídia, que criemos juízo de valor de maneira intempestiva, no calor dos fatos. Convém deixar passar a poeira emocional, a histeria coletiva. É imprescindível agir com inteligência emocional. É importante manter a cabeça no lugar. Afinal, destruir o criminoso não vai trazer de volta a vida ceifada.
É preciso lembrar que existem muitos outros problemas, que geram a violência, como a desigualdade social, a educação (a falta de), a superpopulação, o preconceito, a intolerância. Seremos bem mais efetivos se contribuirmos para criar de uma cultura de transformação social, atuando no âmago do problema principal para as gerações futuras, para que elas não venham a vivenciar o mesmo que passamos nos dias atuais.