Cá no nosso refúgio, já estamos ajustando nossos canais às estações das terras longínquas para onde vamos, dentro de poucos dias.
Aqui, já se sofre da síndrome de dezembro. Faz um calorão medonho. Em dois segundos, ao ar livre, o sol queima a nossa pele, causando a lombeira, e condicionando mais lentamente a nossa jornada diária. Haja suor, cerveja e gente.
As praias andam disputadíssimas nos finais de semana. O caos na ruas, principalmente por conta das compras natalinas, cresce a cada dia, o trânsito está engarrafado, os estacionamentos sempre lotados, os motoristas mais agitados. Nas empresas, só se falam em vendas; e, nas repartições públicas, em relatórios e confraternizações.
As vitrines nos shoppings e na cidade estão repletas de luzes, de novidades, de moda colorida e de filas. Filas também nos bancos, nos salões de beleza, nos consultórios médicos, nas agências de viagens, nos correios, nos supermercados, nos restaurantes, nas padarias, nos banheiros, nos postos de gasolina. E gente, gente saindo pelo ladrão.
Fim de ano é sempre assim. Todos os anos uma multidão sai às ruas para comprar, comer, beber, festejar, amar e fazer turismo. É quando temos a real noção do superpovoamento.
Eita mundo pra ter gentes, meu-deus-do-céu. Gentes de toda qualidade, de todos os tipos, tamanhos, bolsos, cores e humores.
Eita vidão maravilhoso. E a vida só é interessante porque é assim, cíclica, multicultural, multifacetada e caleidoscópica.
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Não há nemhum problema no ciclo repetitivo dos tempos e das modas. Faz parte da vida; e, como seres inacabados, em movimento, temos necessidade disso. Todo ano termina e todo ano recomeça tudo.
Há anos em que estou mais predisposta ao clima de terminar e recomeçar, de celebrar como todo mundo, de correr para minhas crianças. Ao invés disso, há anos que prefiro a quietude, a simplicidade, a calma. Em outros, capricho na minha árvore e no aconchego com os amigos. Mas, há outros em que, indiferente à passagem do tempo, nem quero saber de árvore, nem de compartilhamentos, corro pro meu interior.
Neste fim de ano, já vivo um pouco de cada uma dessas situações. O espirito natalino ainda não baixou - pelo menos por enquanto. Minha festa é de outra natureza, outra dimensão e vai se dar em outras esferas.
Neste ano, depois de um longo parto, com mortos e feridos, resolvi romper com todas a minhas algemas e meus paradigmas anteriores; cansada das mesmices, do mau-caratismo, de conspirações e de enganações levianas, dei um xô! na urucubaca, um sai pra lá, satanás!; fiz uma faxina moral na minha própria casa, expulsando demônios invasores e monstrengos que se aproveitaram da minha boa fé.
Nenhum ser humano merece se submeter à ruindade de outro(s). Somos livres para amar quem quisermos. E doravante, continuará assim, não sou - nem nunca fui - refém de nada, nem de ninguém.
Em minha vida adulta, mantenho em meu redor criaturas que mais dependem do meu afeto, do que eu do delas; não por sentir menos apego, mas por estar sempre aberta a adaptações, e não temer mudanças. Não temo o recomeço de nada, nem o desconhecido. Nunca senti solidão, nem estando sozinha. Sabe por quê? Para onde me viro, só enxergo sorrisos, abraços, amor autêntico e desinteressado. Sempre tive e tenho tudo isso, não tenho do que reclamar. E a fonte sempre foi a família e os verdadeiros amigos. Estão aí grande parte do sentido de minha vida. Nunca tive nenhuma tendência a ser triste, nem cultivar inimigos, porque tenho o que concebo da vida.
Por isso, quando um espírito maligno ousou sobrevoar os meus domínios, eu disse logo: se manda, se toca, isso não serve pra mim, não quero, não preciso. Fiz uma lavagem com ácido muriático. A mim, só doeu perceber as serpentes, a maldade; mas, limpar, foi ato contínuo, foi uma elevação. Eu mereço a calmaria que desfruto agora.
Então, é preciso fechar este ano com chave de ouro. Grandes viradas e conquistas definitivas. Terminar o doutorado foi uma delas. Ver meu filho amadurecer e demonstrar-se um homem íntegro, sensato, querido e leal, foram meus melhores momentos. E todo o empenho de Elias em tornar as nossas vidas melhores, proporcionando conforto em nossas vidas; sentindo, também, o amor total de minhas outras crianças - é tudo que desejo celebrar neste final de ano.
Dois natais que não montamos árvore. Mas, com tanta coisa pra viver e para nos preocupar, ela não tem feito falta. Porque a luz do natal está dentro de nós. Então, vamos nós, família unida, ganhar o mundo, celebrar do nosso jeito. Longe daqui, mas perto dos nossos sonhos.
E, voilà, Paris que nos aguarde!